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Crônicas

Bruneleschi e a cúpula do trovão

Menos quatro graus... A ponta do nariz já havia sucumbido e, os dedos, perdido qualquer capacidade articulatória. Polegar opositor? Que piada!

Calma, Pussy Jane... Afinal, era Brunelleschi! Qualquer abaixo de zero justificava a escalada à Cúpula do Duomo de Firenze, a cidade do Renascimento!

E não era disso que se tratava aquela viagem: renascer?! Firenze de Dante, Leonardo... Michelangelo... da bisteca... Tudo de que precisava após o último bolo barato que levara do pintor de parede, autointitulado exímio artista do grafite, com quem tinha iniciado (forse) un piccolo (ma molto piccolo!!) rapporto. O cara usou o pincel e nunca mais apareceu... Que bolo, Pussy Jane! Justo você, que nem come açúcar.


Renascer... Não era o que almejava como publicitária, após a redação, no mínimo, insólita, da última campanha que assinara, de máscara matizadora para pêlos na orelha? Ou ainda, após o indelével fim de semana na praia com as amigas (todas casadas e com seus devidos filhos), discutindo modelo de fralda e abotoadura... Ah, e o eletroportátil do momento, que era (para sua surpresa) um aparador de pelos da orelha... Ufa, ao menos nenhuma das amigas se interessaria pela máscara matizadora cuja campanha tinha sua assinatura de gênio: "Desamarela que eu gosto". Ai, Dante... que vergonha!

Estátua de Dante Alighieri - Enrico Pazzi (Santa Croce - Firenze)

Não era isso que esperava: renascer das cinzas? Catapultar-se do inferno, em vôo direto aos portões do paraíso? Una vera Beatrice?

O que seriam os menos quatro graus comparados a toda ordem de autoenganos aos quais se submetera nos últimos meses? Afinal, o que é um polegar opositor gélido desarticulado para quem só mete o dedo no lugar errado, Pussy?

Polegar opositor? Ah, meu bem, ainda falta muito para chegar lá... Muito mais que os 467 degraus à Cúpula de Brunelleschi que, ainda que insuficientes para exorcizar o último ano,  seriam a salvação da lavoura. O melhor evento, em meio à tamanha mediocridade consentida e às tentativas de erro.

Definitivamente era disso que Pussy Jane se tratava: uma tentativa de erro. Sottolineato!

Era questão de honra... Iria terminar o ano subindo na vida: 467 degraus, na mais legítima alegoria de elevar-se. Sob os olhos atentos de Dante, Michelangelo, Leonardo e toda renascença: no topo do mundo, mesmo que se sentisse de quatro. Menos 4 graus e mais 467 degraus para jogar, do alto, o ano que passara praticamente em branco. Um Reveillon suicida em meio ao Renascimento.


Olha aí, de novo, o autoengano! Por que tem sempre que tender às falsas associações e distorções de perspectiva? Quer desabar a Cúpula!? Você está se referindo a Bruneleschi! Colocado desta forma parece até que subir os degraus brunelleschianos é par e passo com pular as sete ondas! Só faltava essa: contaminar a cúpula renascentista com a plebe rude da Praia Grande! Cadê o polegar opositor, Beatrice?...

Se decide Pussy Jane! Quem de fato você é, como se vê, em que acredita? Brunelleschi ou Iemanjá? Chega de comprar gato por lebre! Ou você é muito ingênua ou muito benevolente em seus julgamentos!

Vai, que a fila está andando! Quanto tempo mais vai ficar chupando dedo, a porra do polegar opositor? Reclamando dos bolos, pelos na orelha, excessos de açúcar e faltas de oportunidade? Se enganando com pintores de parede e desentupidores de privada? Tem certeza mesmo que quer subir na vida?

Uma fila de menos quatro graus para subir 467 degraus... e por motivos supersticiosos? Tem certeza, Pussy Jane? Uma fila de menos de 0,5 Km por hora? Mais devagar que o ano que você está tentando suicidar! Pular onda não seria mais fácil? Está mais a sua altura. Se tudo é só uma questão de falta de perspectiva e superstição... Sete ondas!

E aí, já trocou o Led Zeppelin pela dupla sertaneja Ruy e O Barbosa? Ou pelo funk fuck folk rebolation da Amelinha Toca Fogo? Ah, Pussy Jane, enfia o polegar opositor no.. Cúpula de Brineleschi, vá...

Você pode subir o quanto quiser, vai alcançar, no máximo, o dedão do pé da figura mais rasteira do inferno, muito mais digno que seu polegar opositor.

Afrescos de Vasari e Zuccaril, representando o Juízo Final (interior da Cúpula)

Droga!! Sempre, sempre tinha que se por para baixo!!!

E daí!? Até o dedão da Cúpula devia ser uma vista incrível!

Claro... Comparado ao desenho daquela espécie de anti-obra contemporânea, do seu namorado pintor de parede... Como era mesmo o nome da obra? "I'm the eggman"... O cara ainda disse que a ideia do nome tinha sido autoral, inspirada na obra dos irmãos Grimm (?!!!!). O cara nem sabia quem eram os Beatles...

Mamma mia, Pussy Jane! Como teve coragem de deixar um artista contemporâneo defecar na parede da sala do apartamento, depois de gastar uma nota com a pintura?! E defecar literalmente: o cara, parafraseando A merda do artista de Manzoni, mesmo nunca tendo ouvido falar dele, usava a própria tinta orgânica, para tornar o trabalho mais autoral (além de sustentável, é claro). O disgraziato era vegano... E (sottolinea): intolerante à lactose...

De que mais alguém precisa para se autointituilar artista contemporâneo?! Como ela ia desconfiar que o pintor de parede não era, de fato, de vanguarda?

Polegar opositor, Pussy? Nem precisa: seu próprio opositor é você! Um dedo do meio, e olhe lá!

Quer abrir o baú de recordações da categoria dedo do meio?

Vamos começar renascendo, logo aqui, em Firenze: maledeto Giovanni Cascamorto. Não era ele que tinha prometido acompanhá-la, em uma visita monitorada, à Cúpula de Brunelleschi?... Claro que você pensou que o cara era interessante. E claro que pensou que era um cara interessante que, talvez, muito talvez, pudesse se interessar por você. Claro...

Podia, não podia? Ou não podia? Poderia? Potrebbe ? Poteva? Como mesma se falava!!??


Si parla così: Não, não poderia, Pussy Jane! O cara era um guia turístico, só estava vendendo sua força de trabalho. A não ser que o Cascamorto fosse garoto de programa... Mas, não... Não tinha essa bola toda, não... E cobrava muito caro! Copula do trovão, né?

Ué?! Ele era um arquiteto italiano. Não podia cobrar barato!

Sim, arquiteto italiano (sottolineato): desempregado.

Ué, ele não tinha culpa da recessão da Itália. Na verdade, talvez ele nem estivesse desempregado, mas em transição de carreira. Por que não, guia turístico? Afinal, quem melhor do que ele, un vero arquiteto fiorentino, para falar de Brunelleschi?  

Ok, Pussy Jane, você venceu: o fiorentino valia a pena. Mas mesmo para um cascamorto carcamano, ele estava um tanto atrasado, ainda mais tendo sido pago antecipadamente pelo seu trabalho (altruísta) de guia turístico. Uma hora, hora e pouco... E olha que a fila de entrada estava bem lenta... Para conseguir se atrasar, o cara tinha que vir, de quatro, se arrastando a menos quatro graus.


Vai ver era o fuso... Ou algum imprevisto... Ou ainda, em sua sapiência, o arquiteto, havia calculado a lentidão da fila. Ou ainda, poderia estar reservando um restaurante para, após a subida a Brunelleschi, o casal que não era casal, fosse provar a tal da bisteca fiorentina, que você, claro, nem provaria... Ou provaria, afinal o jantar com bisteca estava incluso no pacote salgado do arquiteto fiorentino...


Ah, Pussy Jane!! Como você foi cair nessa de pagar pacote completo Cúpula + bisteca, para o Cascamorto? Que cazzo vai fazer com a bisteca?

Estátua de Dante (Piazza dei Signori - Verona, sob a presença de uma pomba fisiologicamente real, prestes a desovar uma bela obra contemporânea em sua cabeça... É o que sempre acontece com quem pensa demais, Pussy Jane...

Ué!! Tinha ficado com vergonha de dizer que não comia esse tipo de gordura, ou que sua religião gordurofóbica não permitia, ou sabia-se lá que argumento teria que inventar agora para justificar seu amor à arte!? Bisteca ou não bisteca. Preferiu pacote completo, e daí?!


Ah, fan ... Pussy Jane! Quer enganar quem?! Sai da falta de perspectiva do pintor de parede sem vergonha, que devia meter o pincel em qualquer buraco, para acabar no ponto cego,  pagando almoço para arquiteto fiorentino desempregado que passava por guia turístico, só para se aproveitar da bisteca alheia!? E ainda leva um bolo do cara! Você nem come açúcar!!

Qual a sua dignidade!? Sabe quando vai subir os degraus de Brunelleschi!? Nunca! Essa fila vai levar uma vida e, ainda assim, você não vai ter mérito nem para enxergar o purgatório!

Você ainda está na era da Cúpula do Trovão, do pintor de parede que se acha um híbrido de Jonh Lennon e Plabo Picasso... E do arquiteto que reponde por Brunelleschi... Arte contemporânea, un cazzo! Tudo bem que Mad Max já é uma boa referência, mas esse tipo de cara está bem longe de Valhalla.

Va fan... Cúpula de Brunelleschi, Pussy Jane!

Era por isso que ela odiava arte contemporânea! Por causa de caras como o pintor de parede e "I am the walruss", do arquiteto Cascamorto, que misturava bisteca com Gioconda e vendia tudo no mesmo pacote, como quem visita o Duomo comendo a mesma pipoca de Mad Max e a Cúpula doTrovão!

BRUMMMMM!!!!!

Pode se derramar em lágrimas, Pussy!! É isso mesmo! O arquiteto não dá a mínima para você! Ele só está rodeando a bisteca (e nem é a sua)!

Como um cara, hipoteticamente interessado, te deixa na fila, a menos 4 graus, com os dois ingressos na mão, que aliás, você pagou, e nem aparece? Acorda, Pussy Jane! Quer terminar o ano bem? Sai da porra da fila e vai embora! Volta para o hotel, que você pagou; engole a despesa da porra dos ingressos, que você comprou, e chega de pagar penitência! Pintor , arquiteto, fiorentino, bisteca, Mad Max! Ao inferno de Dante! Vai cuidar da sua vida! Procura um emprego melhor, compra um sapato, faz esse cabelo que está horrível!

- Svegliati!! Svegliati!!! Vada via!! - era Bruneleschi falando, do alto da Cúpula do trovão, a menos quatro graus e mais 467 degraus...

E, de sua perspectiva, Brunelleschi tinha razão. Mas ela não podia ir embora assim... O maledeto do Cascamorto tinha prometido! Ele talvez chegasse ainda... E mesmo que não chegasse, agora seria questão de honra, subir sozinha aqueles degraus! Não precisaria de nenhum arquiteto fiorentino, nunca mais! O projeto arquitetônico do seu destino estava muito bem resolvido (tirando as paredes do apartamento, é claro).

Ah, calma lá, né, Pussy Jane... Também não é assim, não... Você escolhe mal o guia turístico e todo fiorentino é cascamorto!? A falta de capacidade é sua, não da história da arte!

Dane-se! Ia subir sozinha e pronto! Em época de empoderamento, não podia se render a uma promessa de bisteca, que ela mesma iria pagar! Aliás, já pagara... Pacote completo... Como era idiota!

E lá estava ela... A quilômetros luz da Cúpula de Brunelleschi, na fila, redatora publicitária, escrevendo mais uma história sem sentido, de mais ou menos 500 degraus até o purgatório (que, para chegar ao firmamento, ah, eram outros quinhentos).

Fiorentino comedor de bisteca!! Quer saber? Ainda bem mesmo que o cara não tinha aparecido, pelo menos ela não teve que experimentar o prato! Só faltava ter ingerir 200 kcal por grama, só para contentar Cascamorto. Fora os 180 euros gastos no pacotinho com jantar turístico incluso... Ruminaria a bisteca por anos... O que estava acontecendo com ela?? Nunca, nenhum homem havia mexido no seu bolso. Na bunda até podia, mas no bolso!!!??? Era questão de honra!

- Svegliati, Pussy Jane! Svegliati!! - e Brunelleschi não queria se calar.

Bruneleschi

Menos 4 graus no purgatório das auto-reflexões e, após 2 horas de fila, alguns passos e estaria aos pés de Brunelleschi... Depois de um fora do pintor de parede que se considerava uma mistura de Ringo Star com Andy Wharol, e do bolo do arquiteto Cascamorto comedor de bisteca, iniciaria sua subida à Cúpula. Isso sim era Valhalla!

E chegando à porta de entrada:

- Signorina... Il biglietto, per cortesia.

E Pussy Jane mostrou o papel que imprimira no hotel.

- No signorina, questa é la prenotazione... Il biglietto é altro.

Pqp, PJ! Pela Cúpula de Brunelleschi! Só faltava essa: tinha limpado a bunda com o papel errado! Não era possível! Tinha saído do hotel com dois impressos: a porra da prenotazione (reserva) e o biglietto (ticket). Como pôde escolhe bem o ticket como quebra-galho?

- Ma signore, non ho altro...

- Mi dispiace, signorina, non si può salire senza il biglietto.

Merda!! Era culpa do Cascamorto! Se ele não tivesse proposto o pacote turístico Bruneleschi - Bisteca, ela, que certamente não comeria bisteca, não teria que se precaver com um lanche natural de bar. Não teria escolhido o bar mais barato das redondezas que, obviamente, mancava em papel higiênico e não teria sido obrigada a lançar mão do primeiro papel que acenasse SOS na bolsa! Se não fosse a falta de perspectiva do arquiteto cascamorto, ela provavelmente teria feito a escolha certa entre o ticket e a reserva, e teria se limpado com a reserva, não com o biglietto ufficiale!!! Ai, que humilhação...

Sveglieti!! Svegliati!! - Brunelleschi era mesmo incansável!

- Ma signore.... Mi dispiace, io... - como explcaria que tinha limpado as nádegas (ou o ... que as valesse) com o ticket da Cúpula?! Como? O que o signore que controlava a entrada de acesso às escadarias, i am the pensaria? Iria julgá-la uma inculta, alguém que come bisteca fiorentina como se fosse Big Mac, ou que não sabe a difenreça entre o ovo de colombo e I am the Walrus, ou entre o mictório de Duchamp e o David de  Michelangelo!...  

Arte contemporânea é mesmo uma merda!

- Signore, mi dispiace, io...

- Signorina, il presunto biglietto dovrebbe essere ..

- Ma che presunto!!?? Era bisteca! - mas como ele sabia da história da bisteca? Devia estar mancomunado com o Cascamorto! Figli di un cane!

À essa altura Pussy Jane já estava abrindo mão do léxico...

- No signorina! No!!!! Punto e basta! - e dessa vez o cara do controle do ingresso, que provavelmente também devia ter síndrome de autointitulado, um aspirante a Donatello, foi incisivo e estúpido, como só un vero italiano poderia ser.

Pussy respirou toda a fúria dos 467 degraus, o biglietto da Cúpula, o cu no biglietto, o purgatório, o arquiteto que queria ser rei, os aparadores de pêlo, o pintor de parede, a Cúpula do trovão e, alcançando Valhalla, vomitou  a bisteca (con tutti i contorni):

- Ma chi cazzo, sei tu!!?? Bruneleschi?! - e enchendo a mão do léxico perdido, virou o tapa mais empoderado na faccia do guardião das portas que levavam à Cúpula. Um tapa tão sonoro que acordou os sinos do Campanile di Giotto

Campanile di Giotto - Giotto di Bondone

Os óculos do fiorentino da porta de entrada da Cúpula saltitaram, em câmera lenta, aos badalos dos sinos e olhos atônitos da fila, que continuava a se estender por quilômetros, abarcando amadores de arte, críticos, pretensos artistas, ou simples mortais como ela, em um dia ruim, a caminho de algo, fosse da Cúpula de Brunelleschi ou Valhalla... Em juízo final ou final de juízo.

E Pussy Jane pegou o papel da prenotazione que não era bilhete, virou as costas à fila, ao arquiteto, ao pintor, até mesmo a Brunelleschi, sabendo que estava subindo, aos poucos, seus degraus, e que, de quatro ou a menos quatro, um dia, chegaria lá. E Dante, certamente, a reconheceria.

Será, Beatrice?...

E faltou a pomba...