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Crônicas

Sugar Mice e uma Lágrima de Sal

Jamais pensou que ouviria aquela música ao vivo, em um show.
Estranho aquilo: algumas coisas parecem acontecer sem estar acontecendo. E talvez coisas nunca aconteçam de fato, e tudo seja apenas impressão. Impressão e memória. Como aquela música, ao vivo e, ao mesmo tempo, tão distante e gravada, trazendo cravada uma menina que não era mais, mas que ainda era; uma menina que não tinha o mesmo tamanho, mas ainda preenchia os melhores momentos de sua história. Um corpo que era e não era…
Estranho como as coisas parecem acontecer sem estar acontecendo. Ela crescera e nem sabia ao certo como… Como, Pussy Jane? Como você cresceu assim, de uma hora pra outra, ao vivo, e nem percebeu?

Quando menina, Pussy Jane nunca entendera o significado de ‘ao vivo’. O pai tentava explicar:
“Ao vivo é quando você ouve a música que está sendo tocada na hora, no show… Entendeu? Existem também os discos de shows ao vivo, mas é outra coisa.”

Pussy não conseguia desvencilhar vida e instantaneidade, da música que ouvia no toca-fitas do carro ou na vitrola (Nossa, quanto tempo passara!). Aquilo não podia ser outra coisa senão ao vivo.

“Mas a música tá tocando, pai!! É vivo, ué!?”

A velha mania da menina Pussy Jane de ter sempre razão, o que não mudara com o tempo e o tamanho. Era a mesma mania de desafiar o pai que ‘ok, estava sempre certo’ mas ninguém precisava saber, afinal às vezes ela também tinha que ganhar, nem que fosse só de mentirinha… Já que no jogo de xadrez ela não teria mesmo chance.
Ou talvez a curiosidade inquisidora fosse só o combustível da vontade de engolir um mundo que queria entender e conquistar. Crianças conseguem ganhar assim, simplesmente buscando as repostas; adultos passam a vida tentando fazê-lo mas evitam a dúvida…

Pussy jamais pensou que fosse ouvir aquela música ao vivo, justo aquela… Pussy jamais pensou que entenderia o significado de ‘ao vivo’ mas, ainda menina e sem nada a perder, lançara a pergunta. E agora estava ali, um outro corpo que era o mesmo e sempre seria, ganhando sua resposta com o vivo de todas as cores do palco coreografado de luzes, orquestrado por uma voz-refrão cristalina e assertiva…

“Pai, como é o nome do vocalista do Marillion? Marillion?”
“Não, Pussy: Marillion é o nome da banda. Banda é uma coisa, o artista solo ou o vocalista é outra.”

“Ah, mas e o Bon Jovi, que é Bon Jovi? O Van Halen também, pai. Eu vi na capa do disco…”

Ah, Pussy Jane precisava saber tudo sobre rock’n roll. Como o pai explicaria aquilo? Mas ele tentava, afinal ela só ficaria satisfeita quando descobrisse todas as regras do jogo. Mesmo que às vezes o jogo não tivesse regras, ou que fosse como xadrez, que ela nunca teria chance de ganhar… Tentar entender e significar coisas já bastava.

Steve Hogarth era o nome do vocalista que Pussy ouvia ali, ao vivo; mas quando de sua dúvida menina o vocalista era outro, Fish… Ah, os nomes… Como se sentia importante por sabê-los.
“Pai, por que essa música chama Sugar mice? Põe de novo? Ratos de açucar? Fish e ratos de açúcar… É tudo nome de bicho nessa banda, pai?”

E o pai repetia a canção Marillion, tocada em vinil, que um dia sairia de moda, e depois voltaria a ser cult. Enquanto Pussy Jane devorava a capa do álbum, tentando decifrar quem eram aqueles homens desenhados e o que significavam aquelas frases de açúcar, que se desmanchavam no pouco que Pussy Jane e suas aulas de inglês infantis conseguiam traduzir.

We’re just sugar mice in the rain…

“Pai, o que ele tá falando? Ratos de açúcar na chuva? Mas por que ele tá triste? Tem clipe essa música, pai?”
Pussy tentava levar a música ao pé da letra, só para mostrar que estava indo bem na aula de inglês. Sugar mice in the rain… Mas a menina ainda não entendia a metáfora sob a letra que até pareceria engraçada assim, traduzida pelo inglês de menina que tinha como referência alguns desenhos infantis e ainda não entendia de finais que não fossem os felizes… Mas o clipe não era engraçado, nem a música. Por que será que ela gostava tanto de coisas sem graça?
We are just sugar mice in the rain…

E Pussy Jane jamais pensou que fosse ouvir o refrão tão alto, tão claro, tão iluminado e colorido. Jamais pensou que fosse ouví-lo daquele ‘ao vivo’ que o pai tanto explicara. Soava como seu primeiro grande show.
E ela olhou para o lado e lá estavam, pai e mãe e o irmão, em seu primeiro grande show:

“Tá vendo Pussy!? Isso é um show ao vivo…”

“Ah, é muito legal né, pai? Olha mãe, quanta gente!”

Talvez ela nem tivesse entendido tão bem aquele ao vivo, mas as mãos dadas aos seus, já tinham dado significado a tudo. Era desse ‘ao vivo’ de mãos dadas que a menina construíra suas referências musicais e talvez, a própria alma.

E Pussy Jane olhou para o lado… O pai, a mãe e o irmão acompanhavam: ratos de açúcar na chuva… Pussy Jane olhou para trás: eram todos sugar mice in the rain… E aquilo era tão ao vivo, era vivo e era Pussy menina e Pussy que começava a decifrar metáforas e entender que os ratos de açúcar têm fim, e não… E nunca…
Porque Pussy Jane olhou para trás e ainda via a menina interrogativa, viva, perguntando sobre letras de refrão de um idioma que ela apenas começara a aprender. E olhou para o lado e era a mulher interrogativa, ao vivo, descobrindo que entender de metáforas, às vezes, não tem graca, que nem todos os ratos de açúcar são doces e que nem todos desaparecem.
Os seus, ao vivo, sob o mesmo refrão, disputando o tempo de Pussy Jane entre passado e presente, entre futuro e o que é ao vivo. We’re just sugar mice in the rain…

E a menina que achava graça dos ratos de açúcar, sob o refrão ao vivo, chorou…
Não era engraçado que os ratos derretessem, nem que o pai ou a mãe e o irmão, ao vivo, um dia pudessem desaparecer. Quis abraçá-los de um açúcar que não derrete, que é ao vivo sempre. Mas era o refrão que não derretia, áspero, machucando as mãos da menina que tentava não largar dos pais lá, naquele primeiro show. Lembra?

“Lembra pai?”

E naquele momento, Pussy Jane quis que todas as lembranças que guardara consigo fossem as mesmas do pai, do irmão, da mãe… Porque eram do mesmo açúcar: o açúcar que não derretia… Pussy Jane chorou uma lágrima salgada que devia ser doce, ao vivo… Uma lágrima derretendo uma Pussy Jane adulta e fazendo-a voltar a ser criança, no tempo em que as músicas todas eram ao vivo e nenhuma metáfora fazia chorar. Uma época em que ela achava graça do nome do vocalista, que era Fish, e já nem era o mesmo…

“Peixe pai? Porque ele chama peixe?”

Pussy Jane às voltas com sua necessidade de entender o mundo que às vezes, não tinha lógica…

Naquele dia, de refrão ao vivo, Marillion a fez chorar, menina e adulta.
Pussy Jane olhou para trás e eram o pai, o irmão, a mãe que queria nunca derretessem… Olhou para o lado e eram o pai, o irmão, a mãe, que jamais derreteriam…
Ao som áspero e doce, de açúcar, e uma lágrima de sal….